Eu só queria que alguém me amasse,
Porque eu mesmo não me amo,
Me ame, me ame, me ame!…
por favor…
Olhei para o garoto sentado nas escadas, mas ele não olhou para mim. Pés apoiados no chão; cotovelos apoiados nas coxas magras das suas pernas frágeis; rosto apoiado pelas mãos delicadas, porém cheias de arranhões, com pulsos pálidos com marcas talhadas visíveis, apesar da tentativa falha de escondê-las sob as mangas compridas da blusa desbotada. Fazia frio, e as escadas eram de pedra. Escadas de uma velha igreja, a qual uma estadia não muito agradável no fogo do inferno. O garoto respirou fundo quando abriu a boca para falar alguma coisa, mas as palavras não vieram; voltaram para dentro da garganta com uma sensação sufocante, como um nó escoteiro mal feito, mas não menos apertado. Senti frio. Não apenas o frio externo do tempo, mas o frio interno e psicológico também. A cidade estava solitária; seu coração gelado como uma pedra antiga, lembrando uma noiva abandonada ao altar, ou alguém que acabou de passar pela primeira decepção amorosa, ou mais uma decepção amorosa.
Não havia ninguém por perto e ninguém para se confessar, para conversar, ou mesmo lançar olhares julgadores para o garoto na escada calças jeans rasgadas e blusa de mangas compridas. Um piercing outrora ocupara o seu lábio inferior, mas o artefato de metal já não estava ali, afinal, por que usá-lo? Por que insistir naquelas roupas feias e que nem mesmo protegem do frio cortante? Frio que gela os ossos e faz bater os dentes, sentir a garganta seca. Pior: faz sentir o coração doendo; o buraco interno; os calafrios estranhos, como choques que acolhem. A alegria foi banida desse lugar.
Um crânio foi encontrado em um terreno baldio. Acusaram a velha bruxa e a lincharam até morrer. Se assombraram ao descobrir que o autor daquela monstruosidade fora o pastor do grande templo, aonde todos iam pedir perdão pelos pecados e pagar uma parte do seu salário – indulgências te levam pro céu – O filho foi pego no flagra trocando um beijo com outro garoto. Vergonha para seu pai. Vergonha para a sua mãe. Vergonha para a família toda, e para a cidade também, exceto para o garoto cabisbaixo e franzino sentado nas escadas da igreja católica e gótica. Ele era o outro garoto, mas seus pais não o mataram ou ameaçaram ir pro inferno, como os senhores e senhoras da cidade, alguns do templo, outros da igreja. Apenas o jogaram friamente na rua de pedra, com suas roupas e seus livros e algum dinheiro para a passagem de ônibus. Poderia ir para a capital, trabalhar com qualquer coisa e assim sobreviver. Sozinho, em uma cidade grande.
Seria o frio da multidão sem tempo pior que o frio da pequena cidade de pedra? Seu pensamento desenhava. E as visões da velha ponte e o rio negro e frio o atormentavam - Liberdade - e as lembranças os assombravam a cada segundo, a cada dia. Tristeza por estar só. Revolta pela impunidade do pastor. Tão logo o assombro pelo seu ato hediondo, tão logo o passaram a ver como um herói. Herói que lava a honra da família a da cidade inteira.
Solidão, Frio, Fome, Medo, Solidão, Frio, Fome, Medo, Solidão. O caminho para o rio muito claro. Ponte de pedra. Igreja de pedra. Cidade de pedra. Coração de pedra. Apenas um pequeno bosque atrás daquela igreja, o caminho da esquerda e ao fundo… um pouco de mato e lama e então: pedras frias e feias, largadas ao tempo. Será que as almas dos escravos se lembravam do trabalho árduo? Será que suas mãos doíam ao lembrar de como sofreram para construir aquela ponte? E agora ela estava abandonada. Sem ninguém por perto. Ninguém que pudesse surgir no último instante e gritar: “Ei, garoto!” - Perfeição – Olhos cerrados, lábios trêmulos. Lágrimas congeladas.
Mas o garoto permaneceu nas escadas; presente de corpo, longe de pensamento. Ergueu a cabeça sem olhar para ninguém. O sol da manhã que nascia era frio, como tudo naquela cidade, mas com a luz veio a vontade renovada de permanecer vivo, existindo, e que se a própria existência incomodasse e envergonhasse a cidade inteira, que ela ardesse em raiva e repúdio. Trocou o caminho da ponte pelo caminho da rodoviária. Passou medo, fome, sede, e, sobretudo, frio. Não se entregou. Se prostituiu, traficou se escondeu e muito chorou. Mas não se entregou. Com o tempo vieram mãos amigas, noites em sofás, dinheiro para a comida. Trabalhos diversos. Terríveis, mas necessários. Muitos livros - encanto - e passou no vestibular. Cresceu, amadureceu, conheceu o amor e com o dinheiro das aulas como professor de literatura, pagou a entrada de um apartamento. Enfim um lar para si, o namorado e o gatinho que os dois adotaram. Um lugar com amor e compreensão. Uma família de verdade, diferente da que o chutou de casa uma década antes.
E enfim, de volta à cidade de onde vim, olho a escadaria vazia da igreja de pedra e visualizo o garoto que outrora jazia ali. Sem esperança e sem amor, pronto para pôr pedras nos bolsos e se lançar às águas frias do rio próximo daqui. Uma visita rápida. Um exorcismo final. A vida é boa e deverá continuar a ser, mas os habitantes estarão amaldiçoados com seus corações de pedra, por nunca entenderem o que é o amor, pois mataram um de seus irmãos e lançaram paus e pedras em forma de olhares gélidos e palavras afiadas a outro, porque um dia ousaram experimentar a vida e sonharam com a felicidade. Meu coração bate rápido de alegria enquanto parto e dou o meu adeus à cidade de pedra e seus habitantes condenados à infelicidade eterna.
- Kaio Moreira